quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fugaz Urgência

O meu peito ruge num silêncio inquieto
de algo que está previsto
mas não acontece
que está para ser
mas não é
Uma expectativa ansiosa
Ouço as promessas que o vento
me traz e leva logo de seguida
Sinto o cheiro do futuro
mas fico presa a um presente
que nunca muda
Fecho os olhos
e vejo ao longe
o destino que me está reservado
e que eu quero que seja meu
hoje, ontem.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pedro Paixão - Excerto



"Queria dizer-te uma coisa que nunca te disse. Mas nunca vem a propósito. Quando ficas em silêncio muito tempo apetece-me quebrá-lo e dizer-te assim sem mais. Mas então sou eu que tenho medo. De não conseguir dizer senão outra coisa, se bem que próxima, e que te conduza inevitavelmente ao engano. Então digo-te uma coisa qualquer para avaliar o teu estado de espírito e chego à conclusão que ainda não é tempo. Por vezes creio que já te disse sem querer, por outras palavras. Tu não ouviste ou não quiseste ouvir ou não achaste necessário prestar atenção, esforçaste-te a responder. Quando for preciso vai ser tarde demais. Sim, é isso. É uma coisa para te dizer depois, quando já não estiveres aqui ao meu lado para ouvires. Uma coisa do tipo: quando me quiseres eu já não vou estar aqui para te querer." 

Pedro Paixão

PS: Não é lindo?... estou até hoje para perceber porque nunca li nada deste senhor


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Só por querer


Acordo de noite
a saber que te quero.

Quero-te para hoje, para ontem
percorrem-me as vagas
de uma saudade incontrolável
inegável
impossível de ignorar
uma saudade de hoje
nunca de amanhã

Quero-te para apagar
esta dor que sinto
esta fraqueza que me assalta

Quero-te
como quem toma um banho
para limpar as impurezas
sem pensar que a água
corre turva pelo ralo

Quero-te sem te querer
sem te saber
Quero-te sem me importar
Quero-te só por querer.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sem sabor


Acatar a tua decisão
é desistir da minha causa
É baixar os braços quando ainda
há tanta batalha para travar

É morrer na praia
sem chegar a sentir o sabor do mar

É morrer sem lutar, sem tentar

É viver na sombra do mais ou menos,
do assim assim,
do que podia ter sido mas não foi

A tua decisão é assim...
Sem suor, sem sabor

Ciclo Vicioso


Conheço tão bem este ciclo vicioso que és tu...
Esta constante inconstância
como o mar, como a lua
como o dia e a noite
que nunca são para sempre
Conheço a tua cadência...
o teu "vir para ficar"... mas só um pouco

E, roçando a incoerência...
Quando estás, estás realmente...
com tudo, em pleno,
e enches o mundo que,
naquele momento é só teu

Quando vais... bem, é quase como se nunca tivesses estado,
nunca tivesses vindo
quase como se nunca fosses voltar

Mas voltas... voltas sempre

terça-feira, 17 de julho de 2012

Só mais um...


"Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência.
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo."

Clarice Lispector

Simplesmente deliciada

"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo."


Clarice Lispector


Estou deliciada com os textos desta senhora... são tão... efectivos, tão reais.